Bem aventurados aqueles que protegem sua fortaleza.
Sejam bem vindos aventureiro! Há décadas que eu não insiro alguma coisa interessante no blog, mas como promessa estou aqui e daqui não sairei!
Para compensar todo o sofrimento dessa era sem post, acabo de trazer uma história bem interessante.
Esse é um apendice que estou usando para o meu livro. Coisas legais estão por vir, espero que gostem!
O texto é grande, porém como disse é interessante, espero que estejam preparados, não irão se arrepende. ENJOY!
- O Éden e a trindade de guardiões -
:: O Anjo sombrio, a Dragão Azul e a Virgem ::
= Sua sorte foi ter encontrado três desejos que se tornariam um só, sua alma. =
O dia chegava sorrateiramente. Um sol amarelo erguia-se atrás das montanhas e os raios davam os seus primeiros passos após uma noite quente de verão. A brisa da manhã sussurrava nos galhos das árvores. Folhas verdes ora ou outra se desprendiam das árvores e acompanhavam a brisa da manhã alegremente em uma dança espiralada.
Um riacho de águas cristalinas brotava das pedras e formava um rio que corria por vários metros aquela paisagem verde vibrante. A água batia nas pedras e respingava gotas límpidas nas margens do rio que levantavam um cheiro delicioso de terra molhada ao amanhecer. Seguindo seu curso e quebrando em mais pedras ao caminho, as águas do rio precipitavam em uma cachoeira densa e mergulhavam num vasto lago puro repleto de peixes coloridos.
De trás da cachoeira, aos poucos a imagem de uma mulher se formava recortando a água que deslizava em seu corpo.
Nua, de cabelos longos e negros, a mulher sai de trás da cachoeira e mergulha no lago suavemente. Os peixes bailavam ao redor de seu corpo. Nadou até às margens do lago.
A mulher de olhos negros ficou parada por alguns minutos às margens do lago. Delicadamente alisava seus longos cabelos com uma das mãos. Aqueles fios mais negros que a escuridão eram lisos e perfeitamente cuidados.
Com seu olhar solitário, a mulher olhou para a palma de sua mão direita. Uma dor latejava sua palma. Mergulhou suas mãos na água doce. Um rastro de sangue se dissipou nas águas cristalinas revelando um corte profundo na palma das mãos da mulher. Sua cicatriz de tempos esquecidos se abria como sempre acontecia. Era uma cicatriz que não a deixava esquecer algo que sempre quisera fugir: seu passado. Um corte que não cicatrizava.
A mulher já sentia sua idade pesar, porém, sua pele ainda preservava o mesmo aspecto de anos atrás. Era uma atribuição a boa alimentação e a sua magia que a cada dia tornava-se mais poderosa. Sylia era uma feiticeira. A melhor feiticeira da Guilda dos Chacais. Uma sociedade organizada de magos que era temida e abençoada por mortais e divindades.
Ao sair das águas com o corpo inteiro molhado gotejando a água cristalina do lago, a feiticeira encontrava-se em êxtase. A brisa do amanhecer soprou suas graças no corpo de Sylia. Sua pele suave se arrepiou com o toque da brisa. A grande pedra às margens do lago estava aquecida com o calor dos raios de sol da aurora. Sylia subiu até a pedra e por alguns minutos deixou que o sol contemplasse seu corpo.
Vinte minutos foram suficientes para que a pele macia de Sylia secasse ao sol. A mulher levanta-se e vai até ao gramado onde suas roupas repousavam.
Um vestido de seda branco moldou seu corpo perfeitamente. Por cima do vestido, um manto vermelho de feltro adornava suas curvas deixando-a mais imponente, mais exuberante. Seu cheiro de baunilha sobre a pele seca perfumava rapidamente à sua volta. O cheiro de sua pele macia era presente. Assim como cheiro de sangue de sua mão vindo do corte que não cicatrizava.
A baunilha embriagava o olfato de qualquer pessoa. E esse cheiro nostálgico misturado com o cheiro de sangue, fazia as pernas de seus inimigos tremerem.
Sylia, já vestida, dirigiu-se a uma gruta próxima às margens do lago e adentrou na penumbra e no silêncio.
Com um movimento de Sylia, velas foram acesas. Candelabros presos nas paredes em formato de serpentes prendiam as velas. O corredor da gruta iluminava-se. Lágrimas de cera escorriam dos candelabros. Um vasto corredor de pedras trilhava o caminho. Sylia caminhou até uma porta grossa de madeira. Um batedor de bronze enfeitava a porta. O adorno na porta possuía o formato de um anjo encapuzado. Segurava uma argola pesada. Sylia pegou a argola e bateu três vezes na porta maciça de madeira.
O som ecoou no corredor.
Rapidamente, um barulho de trancas estremeceu a gruta. A porta rangeu e se abriu. A escuridão do outro lado era intensa, a cor negra das trevas tomava conta de tudo. Mas foi só a feiticeira dar um passo e as velas que haviam no salão se acenderam e a luz tomava conta das trevas.
Um enorme salão com uma mesa circular ao centro revelou-se instantaneamente e um trono feito de ossos e seda se erguia como um altar ao fundo. Na mesa, um banquete esperava sutilmente de forma ilustre cheio de requintes. Pratos e travessas de porcelana davam o toque final para aquelas provisões feitas com frutas, pães, carne e ovos. Garrafas de vinho com detalhes em carvalho valorizavam mais que ouro a degustação daquela ceia.
Duas cadeiras de pedra com entalhes de criaturas místicas estavam expostas uma de frente a outra e foram colocadas de cada lado da mesa simetricamente.
No altar, onde as luzes das velas refletiam os ossos que enfeitavam o frondoso trono, gotas de sangue pingavam do teto e caiam no assento tingindo de vermelho cada osso polido e brilhante. O sangue caía do teto cada vez com mais vontade. As gotas salpicavam o altar e escorriam densamente pelo assento do trono. Parecia ter vida. Rastejavam.
De uma só vez, como se tivesse aberto uma cachoeira de sangue, aquele líquido escarlate caiu do teto com tanta força que misteriosamente formaram de baixo pra cima recortando lentamente a figura de um ser encapuzado. O sangue tomou forma. Estava sentado ao trono. Um homem com seu manto vermelho e capuz – rubro como as entranhas de um animal abatido – repousava. O ser que se formou mutante do sangue na presença de Sylia era o seu mais fiel guardião, Akalanthus. Um espectro místico que vive nas grutas secretas, o anjo sombrio, aquele desprovido de asas. O ser das trevas – espectro da noite que possui o manto vermelho escarlate – estava materializado, sentado naquilo que seria o seu lugar de conforto.
Sylia andou até o altar e parou frente a frente com a criatura materializada que tinha agora as formas e traços de um homem maduro. Um senhor que aparentava ter quarenta e cinco anos. Não se via o olhar da criatura. Um capuz vermelho caía sobre seus olhos. Apenas seu queixo com barba a fazer e uma boca onde repousava um sorriso enigmático apareciam iluminados com a luz das velas que ofuscava toda a gruta.
Sylia. Faz uma reverência ao ser e atentamente encara a criatura.
Ao deixar derrubar o capuz, a face do guardião era triste, possuía os olhos fundos, o rosto desfigurado pelo tempo e uma voz que estremecia a alma.
- Vejo que o dia lhe acariciou com ímpeto mulher. – Disse Akalanthus sorrindo para Sylia. – chegamos exaustos de nossa jornada – Akalanthus sentado ao trono brincava com uma moeda de ouro que dava voltas em seus dedos suavemente.
A mulher nem ao menos sentia medo. Toda a transformação que via diante de seus olhos lhe era familiar e sua visão estava acostumada com a criatura de sangue. Afinal, aquele era seu guardião.
- Você deveria sair de vez em quando Akalanthus. O lago está uma delícia. Não deixe que as trevas beijem suas feitorias. – Sylia tinha um tom de deboche. – Lebulos e Ayelin sempre passeiam quando podem e mesmo assim nunca deixaram de proteger a fortaleza. Você deveria fazer o mesmo.
- A escuridão é minha aliada. Não me coloque no mesmo nível daqueles guardiões inúteis. – Akalanthus mantinha sua voz grossa e fria. – Você não quer que eu saia para colher flores, não é? Deixe-me em paz, mulher.
Akalanthus se levanta do trono e guarda sua preciosa moeda de ouro em um bolso interno de seu manto. Segue cuidadosamente em direção a Sylia. Aproxima-se e abre um de seus braços fazendo sinal para que Sylia lhe acompanhasse de braços dados. A mulher acatou imediatamente.
- Vejo que fez o café da manhã com empenho meu amigo. Não sabia que espectros sabiam cozinhar. – Sylia mantinha o mesmo tom de deboche.
- Você não sabe que pratos saborosos eu posso fazer com carne humana. Um dia eu ainda degustarei a sua carne, mulher. – Akalanthus agora mantinha um tom mais sereno na voz, mas ainda com o mesmo timbre frio e tenebroso.
Akalanthus levou Sylia até uma das cadeiras e lhe ajudou a sentar com um gesto de cavalheirismo.
- E para sua alegria, foi Ayelin que preparou o seu desjejum. Veneno é a única coisa que sei preparar. – Akalanthus sorria friamente.
Sylia sentou-se com graça e não tirava seus olhos daquela presença fúnebre. O tenebroso guardião caminhou suavemente até a outra cadeira e sentou-se. Tanto a cadeira de pedra quanto Akalanthus pareciam combinar com aquele momento sombrio à luz de velas. O silêncio pairava sobre a sala. O som das gotas de água que rastejavam pelas fendas da gruta e pingavam ao chão ecoando uma sinfonia que expressavam lágrimas, quebrava o silêncio que havia entre eles.
Akalanthus se serviu de vinho. Encheu sua taça de vidro com um vinho trazido das montanhas, tão raro quanto diamante. Degustava com gozo cada gole daquele líquido rubro-sangue. Sylia se servia com água e arrumava em seu prato pedaços de pães. Pegou uma pequena jarra e aos poucos gotejava mel em seu alimente e em seguida comia em silêncio. Akalanthus não tirava os olhos da mulher. Sylia se alimentava olhando sempre furtivamente para os olhos azuis e frios daquele homem que possuía os olhos tão solitários quanto os delas. O guardião girava sua taça de vinho em círculos deixando o líquido deslizar suavemente no vidro.
- Vinho de Cortesal. Uma iguaria rara no mundo de Esdra. Mais de cem anos represados em um único frasco. Anos gastos com cuidados para se fabricar uma única garrafa. Reis e fidalgos compram esses vinhos a preços exorbitantes. Ouvi dizer que no continente de Nanco um fidalgo chegou a pagar mais de um milhão por uma garrafa desse vinho. E eu tenho uma dezena dessas estocadas aqui no Éden. Não é irônico? A garrafa nas mãos de um espectro. Os aldeões de Cortesal jamais venderiam uma dessas para mim. Agora tenho dez. Fabuloso. – Akalanthus estava inerte com seus pensamentos.
- Você roubou, Akalanthus. – Sylia parou e olhou fixamente para seu guardião. – Essas garrafas estavam escondidas em uma das escavações no deserto de Arahás. E você sem eu saber fez com que os mercadores levassem essa carga escondida até a vila de Damasco. Aí Alejandro e Victor, aqueles dois imbecis lhe ajudaram a trazer essas garrafas até aqui. Você às vezes me dá nos nervos. – Sylia sorriu.
- Que bom. – retrucou Akalanthus
- Você não vê que dia após dias, pessoas são mortas por um frasco desse? Eu desaprovo completamente suas ações. – apunhalou a feiticeira.
- Eu desaprovo a sua desaprovação. – espetou o espectro num tom sarcástico.
A forma humana que Akalanthus se fixava era a de um homem de cabelos longos. Cada fio de cabelo era de um branco intenso. Seus olhos fundos azuis lhe davam todo o ar sombrio que combinava com seu rosto velho, homem maduro com barba a fazer. Os dois continuaram com seus olhares e alfinetadas até Sylia enfim falar:
-Desde quando eu transformei você em meu guardião, seus olhos estão repletos de ódio, Akalanthus. Você vive fazendo coisas que me deixam furiosa. Você sente ódio de mim, não é? – Perguntou Sylia.
O silêncio ocupava todo o salão da gruta. Akalanthus olhava fixamente para os olhos de Sylia. O som das gotas de água saindo das paredes da gruta fazia melodia quebrando o silêncio. Subitamente Akalanthus começa a gargalhar.
- Você me faz rir, mulher! Devo minha vida a você. Um dia eu irei pagar-lhe o que lhe devo. E quando isso acontecer te levarei para o inferno comigo, mulher. Enquanto isso. Minha diversão é irritá-la. Nada pessoal, sabe. Apenas coisas de espectro.
- Em outras palavras, no fundo você me odeia. – Disse Sylia com um sorriso nos lábios.
- Ora, coma mulher! Pare de dizer besteiras! – resmungou Akalanthus.
- Você, Lebulos e Ayelin são meus guardiões. Confiei vocês as minhas costas. Se um dia eu desviar de meu caminho. Estão livres para me impedirem. Se eu desviar do meu caminho, vocês devem acabar comigo, devem me impedir. Lembra quando te disse isso da primeira vez?
Akalanthus tomava seu vinho e não se alimentava de nada. Olhava tristemente para Sylia, essas foram as mesmas palavras que Sylia disse quando aprisionou Akalanthus. Quando o salvou da morte e o transformou em um espectro. O espectro retira a moeda de ouro do seu manto e começa a brincar com ela entre os dedos.
- Naquele dia eu poderia ter morrido. Eu poderia ter descansado. Mas você me negou até mesmo a morte. Odiar-te é apenas um começo. – Akalanthus estava sério.
- Não me importo. Só quero que nunca se esqueça de nossa promessa. – Sylia tinha um sorriso suave no rosto.
- Se um dia você trair nossa confiança. Juro que arrancarei sua alma com meus dentes. – Akalanthus cravava seus olhos em Sylia. – E essa foi a promessa que eu fiz a você.
- Não espero menos de você Akalanthus. – Sylia comia alegremente enquanto olhava para seu guardião. – Eu tenho um favor a lhe pedir. Talvez você não goste muito, mas eu não tenho escolha. – Sylia juntava suas mãos como se fizesse uma prece e apoiava seu queixo nelas olhando penetrantemente nos olhos de Akalanthus.
- Um favor? Já sabe minhas intenções. Eu faço o que eu quiser. Não me venha pedir favores que eu não sentirei vontade de acatar. – Akalanthus contorcia seu rosto, sabia que algo de ruim viria em seguida.
- Eu irei atrás de Thanatos… – disse Sylia.
Akalanthus arregalou seus olhos, como se Sylia tivesse dito algo extremamente ruim.
- Dessa vez você fica. Irei sozinha a partir de hoje. Quero que você proteja a fortaleza do Éden. Aquilo que encontramos em Arahás meses atrás ainda me intriga. – finalizou Sylia.
Akalanthus se levantou ao solavanco e deu um soco na mesa.
- Ora mulher! Que piada é essa? Você tem um Dragão idiota na boca da gruta e uma vadia dos infernos protegendo esse lugar. Aquele Dragão imbecil e aquela garota retardada conseguem espancar qualquer pedante que tente adentrar nessas trevas.
- Acalme-se infeliz! Vocês são a minha alma. É a força que me faz viver nesse mundo medíocre. Vocês sempre estão comigo por onde quer que eu vá. Porém, acho que você seria mais importante aqui do que lá fora.
- Mas que desgraça, mulher! Ir atrás daquele homem é loucura! Você precisa de mim! – Akalanthus arremessa sua taça no chão que se desfaz em pedaços. O vinho se espalha no chão – Na verdade, você precisa de todos nós. – murmurou.
Sylia se levanta, segue em direção a Akalanthus, se agacha e toca levemente em um dos cacos que brilhava ao chão da taça quebrada. Uma gota de sangue de seu dedo se mistura com o vidro. Sua magia se espalha aos cacos. Todos os cacos se unem em uma taça nova e brilhante. Sylia se levanta com a taça nas mãos e se serve de vinho. Coloca a taça em cima da mesa em frente à Akalanthus e toca sua face com as duas mãos. Os olhos se cruzavam.
- Faça esse favor a mim. Eu preciso do seu poder. Preciso de você aqui. Sei bem que meus atos descuidados logo me ceifarão deste mundo. E sei que a qualquer momento, meus inimigos virão atrás da nossa fortaleza e quando isso acontecer, quero você aqui para proteger o Éden desses amaldiçoados. – Sylia olha mais uma vez intensamente nos olhos de Akalanthus. – Não desperdice seu precioso vinho. Existem pessoas nos outros continentes que matariam por um gole dessa iguaria.
- Ah maldita seja, mulher. Amaldiçoada seja você por me ter em suas mãos. Um dia quando me libertar, juro que arrancarei seu coração e o devorarei com prazer e vontade.
- Pode me ameaçar Akalanthus. Nós dois sabemos quem manda em quem. – Sylia beijou levemente a testa do homem que tinha agora seus olhos solitários tomados por um vazio que somente aquele azul de sua íris podia lhe entregar.
- Isso é o que veremos mulher, é o que veremos. – Murmurou Akalanthus olhando para o chão. – Thanatos ficou ensandecido. Ele está colérico por terem negado a ele a imortalidade. Ele irá te matar!
Sylia segue seu caminho sem dizer uma palavra. Por um momento ela para. Vira seu pescoço em direção a Akalanthus e lhe oferece um sorriso angelical, sereno e solitário. O espectro desvia seu olhar numa atitude de reprovação.
Caminhando lentamente até uma segunda porta de madeira onde decorava um batedor com a forma de um dragão prateado, Sylia segura o batedor. O batedor era gelado. A feiticeira repete o mesmo gesto. Três batidas na porta com a argola pesada e a porta se abre fazendo um ranger pesado que ecoa pela gruta.
Ao sair do outro lado da porta, um frio intenso acometia a pele da mulher.
O frio repousava na câmara seguinte. Sylia guarnecida com seu manto vermelho estava protegida. Ao lado da porta de madeira, um dragão gigantesco dormia intensamente em uma posição recolhida que lembrava muito um lobo em sua toca. Sylia se aproxima do dragão que possuía sua pele de escamas indestrutíveis de cor azulada e dentes afiados que rasgaria carne humana como papel. O dragão sente a presença de sua dona e aos poucos seus olhos se abrem deixando à mostra aquelas esferas douradas que possuíam a íris como as de um gato.
O dragão se levanta respirando fundo. De suas narinas saiam uma fumaça densa e fria. Neblina intensa que saiam do dragão de forma que sua inspiração jorrava em sua volta um ar extremamente gelado.
Aquela câmara onde o dragão morava tinha um leve sabor de morte rondando cada canto. Assim como a anterior.
- Lebulos, adorável Lebulos. Queira fazer companhia à Akalanthus, não deixe que ele fique entediado em nossa casa. – Sylia acariciava o focinho do dragão.
A criatura azulada deu um bocejo que encheu o lugar de um frio penetrante. Olhou fixamente para sua mestra.
- Minha senhora. Essa não é uma tarefa fácil de cumprir. – A voz que emanava do dragão era uma voz masculina suave e decidida. Como um velho sábio que usava meticulosamente cada palavra. – Posso tentar entreter aquele velho infeliz, mas sabemos que no final de tudo, serei eu o entediado. Aquele mesquinho é um poço de teimosia.
- Vejo que você se dá bem com ele, Lebulos. – Sylia sorria enquanto acariciava seu dragão.
- Deixe-o em minhas mãos minha rainha. Cuidarei para que ele não saia dos eixos. – Lebulos ficou pensativo por um momento. – Creio que ele não tenha como sair daqui sem sua permissão, Rainha. Mas lhe garanto, se houver um meio desse maldito sair. Eu o impedirei.
- Ainda bem que me entende meu amigo, Lebulos. – Sylia da às costas ao dragão e segue em direção a um corredor.
- Não que isso deva ser de meu humilde interesse, mas, onde minha rainha pretende ir? – Lebulos era um dragão sábio e um de seus dons era pressentir as intenções de toda alma viva.
- Vou me encontrar com Thanatos… – sem deixar Lebulos falar a feiticeira completa – Não se preocupe guardião. Quando eu partir para Kairin te avisarei…
- Thanatos? Não diga isso! – interrompeu o dragão. – Não posso impedir Akalanthus de sair do Éden se você estiver indo para o abismo da insanidade. Aquele homem é o inimigo da humanidade. O mal encarnado. O assassino de mil almas. Ele ficou louco depois que foi renegado pela fonte! Eu irei com você! – Lebulos estava agitado.
- Ninguém irá comigo. – falou Sylia severamente – Desse assunto cuido eu, leal guardião. Faz muito tempo que não tenho uma conversa com aquele homem.
- Tudo isso é por causa do que encontramos em Arahás, minha Rainha?
- Sim. Além do mais, eu preciso dos livros que Thanatos me roubou anos atrás. Naqueles estudos existe algo que pode me ajudar a descobrir o que era aquilo que vimos no deserto. Partirei ao anoitecer.
- Que assim seja. – Lebulos suspirou – Sabe que sentirei sua falta, rainha. Gosto de ficar ao seu lado. – disse Lebulos com tristeza. – invoque-nos se algo acontecer. Prometa!
Sylia ficou em silêncio. Lebulos entendia. Sabia entender um não quando alguém o expressava. Ainda mais sua mestra.
- Logo ficarei com você o tempo todo meu guardião. Você e Akalanthus me ajudaram muito em Arahás. Agora vocês devem descansar.
- Descansar? Somos seus guardiões. Estaremos sempre de prontidão para servir a Rainha. Ainda acho que deveríamos ir junto com a senhora.
- Lebulos, você e Akalanthus são importantes aqui na fortaleza. Principalmente agora que descobrimos algo muito curioso. – Sylia acena para o dragão e continua o seu caminho até um corredor no final da extensa câmara.
A feiticeira chega à saída onde uma terceira porta de madeira com o batedor de uma mulher nua banhado a ouro adornava a porta.
Essa era a terceira e última porta de madeira da fortaleza. Três batidas no batedor e a porta se abria suavemente.
Ao sair, Sylia tem em sua visão uma floresta densa cheia de vida e de olhares curiosos que sempre fitaram o local, mas nunca ousaram recortar suas figuras na luz do sol para dar a imagem de suas faces à feiticeira. Apenas espreitam a entrada da fortaleza como guardiões escravos da curiosidade e da beleza de Sylia. A mulher, senhora da fortaleza, cobre a porta da entrada com magia fazendo que densas raízes que brotavam do chão lacrassem a porta como se tivessem vida.
- Alejandro passou por aqui minha rainha. – Uma voz suave e calorosa de uma garota murmura junto ao vento.
- Ayelin apareça! – Ordenou Sylia.
O vento soprou com vontade, as folhas se agitavam com fúria. As árvores pareciam temer esse nome e estremeciam com o vento. Em segundos, um redemoinho de folhas se formou à frente de Sylia e aos poucos, as folhas foram se transformando em uma garota de pele branca e nua. Seus cabelos dourados e seus olhos verdes juntamente com seus lábios vermelhos e tenros davam o contraste à pele clara, pálida, e seu jeito doce e angelical.
Imediatamente, um cheiro de orvalho e terra molhada impregnou o ambiente e com um sorriso, a virgem angelical apaziguou o vento que se dissipou fazendo pairar um silêncio arrebatador. A garota de cabelos dourados se ajoelhou reverenciando sua Senhora.
- Minha criança. Você, diferente daqueles dois, possui o sorriso mais angelical que já vi, doce Ayelin. – Sylia acariciava a cabeça da garota e mantinha uma expressão de preocupada. – Arahás te deixou entediada, minha criança?
A garota de cabelos dourados se levanta e lança o seu olhar em Sylia deixando aquelas íris verdes invadirem o coração da feiticeira de tristeza.
O silêncio paira outra vez no ar e as duas se olham imobilizadas por alguns segundos. Ayelin subitamente se joga em direção a Sylia e lhe abraça carinhosamente.
- Não pode nos deixar aqui minha Rainha. Leve-nos com você, leve-me com você! Thanatos é perigoso de mais! Não pode ficar face a face com aquele homem sem esperar retaliação, leve-me contigo! – Aqueles olhos verdes lacrimejavam e o calor de seus braços transmitia todos seus sentimentos a Sylia.
- Sei o quanto vocês estão preocupados comigo, Ayelin. Sei o quanto Thanatos é perigoso. Não posso levar meus guardiões comigo. Se algo me acontecer. Vocês serão os donos do meu legado. – Sylia acariciava os cabelos longos de Ayelin que brilhava como ouro ao reflexo do sol que forçava sua entrada entre as arvores que cobriam frondosas todo o lugar. – Repito o que disse lá dentro. Vocês são importantes aqui. Guardam o meu legado que vale muito mais do que todo o ouro desse mundo.
- Promete que irá nos invocar se algo acontecer. Promete? – Ayelin abraçava Sylia com força. – Vou sentir sua falta, rainha. – Ayelin possuía tristeza em suas palavras.
- Eu também. Retornarei logo minha criança. – Sylia não conseguia esconder a preocupação em sua voz. – E Alejandro, voltou para o acampamento Cigano?
- Sim, minha Senhora. Disse que Victor e ele esperariam pela senhora no acampamento. – respondeu Ayelin.
- Ótimo. Cuide da entrada meticulosamente minha criança. E não conte aos meus aprendizes para onde eu irei. Victor e Alejandro não aprovarão minha decisão. Eles tiveram uma batalha recente contra a tribo cigana de Kildra e não os quero envolvidos nesse assunto. Inimigos da tribo Sind podem aproveitar da fraqueza deles e tentar uma investida.
- Digo que a senhora foi visitar um mercador. – disse Ayelin.
- Certo. Espero que Akalanthu e Lebulos não dêem com a língua nos dentes. Não quero Victor e Alejandro envolvidos nisso. Muito menos agora
- Sim, Rainha. – concordou Ayelin.
- Mais uma coisa… – completa Sylia – Diante de qualquer tentativa de uma entrada forçada, você, Ayelin, tem permissão para assassinar qualquer um. – Sylia assumia um semblante de preocupação.
- Quando minha Senhora parte dessa fortaleza? – Pergunta Ayelin.
- Ao anoitecer. Ficarei bem. Não se preocupe. – Sylia acariciava o rosto da garota.
Ayelin beija as mãos de Sylia e abre seus braços em forma de cruz. O vento sopra bruscamente e desfaz o corpo da garota em folhas que se espalham por todos os cantos e somem da vista da feiticeira.
- Estou de saída minha Virgem Guardiã. Descanse agora. – sussurrou Sylia.
Sylia parte adentrando a densa floresta e desaparecendo entre as arvores e raízes. A feiticeira guardava consigo diversos segredos. Um deles colocaria a humanidade em perigo. Seu legado, protegido pela tríade de guardiões que até pouco tempo eram seus companheiros de jornada, tinha um valor imensurável e sentia que devia proteger sua fortaleza mais que sua própria vida. Era nesse lugar, o Éden, que Sylia guardava uma vida inteira de conquistas e ambições.
A fortaleza do Éden.
É assim que Sylia e seus seguidores chamavam esse lugar místico protegido por guardiões solitários e de sentimentos entorpecidos pelo sofrimento.
Está guardada por três portas pesadas de madeira que representam os três poderes simbólicos de Sylia: A Virgem, o Dragão e O Anjo da morte. Esse é o maior legado de uma das maiores feiticeiras do mundo.
Sylia a rinha cristal, Senhora feiticeira da Guilda dos Chacais. A renegada do sol.
